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  • publicado
  • Publicado: Segunda, 13 de Março de 2017, 14h00
  • Última atualização: 13/03/17 15h55

Pesquisadores inovam na vigilância de vetores da malária

malariamosqPesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), em parceria com o Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá (Iepa), desenvolveram uma armadilha inovadora para a coleta de mosquitos, em especial, os anofelinos, que transmitem a malária. A inovação representa três benefícios diretos: facilita as pesquisas de campo, amplia a captura dos mosquitos, e aumenta a segurança em relação ao contato com os vetores. Com o formato similar ao de uma tenda, a ferramenta conta com duas câmaras: a interna, projetada para abrigar o profissional responsável pela coleta, e a externa, onde ficam presos os mosquitos coletados. A separação entre os dois ambientes impede que o agente de endemias ou o pesquisador sejam picados pelos mosquitos capturados que podem estar infectados. Em testes de campo realizados no Norte do Brasil, os pesquisadores comprovaram a eficácia da armadilha, chamada de MosqTent – união das palavras ‘mosquito’ e ‘tenda’, em inglês. A patente foi depositada pela Fiocruz no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi), garantindo o direito à propriedade intelectual da invenção.

 

Confira videorreportagem sobre a MosqTent:

Atualmente, de acordo com o Programa Nacional de Prevenção e Controle da Malária do Ministério da Saúde, a técnica de captura recomendada para o monitoramento de indicadores entomológicos em relação aos anofelinos é por meio da atração humana. Com o método, o especialista, utilizando-se dos Equipamentos de Proteção Individual necessários, posiciona-se no habitat dos mosquitos, que são atraídos pelos vários odores exalados naturalmente pelo corpo. Ao pousar sobre o homem, na tentativa de se alimentar de sangue, são capturados. Segundo o órgão, outras técnicas de coleta ainda não demonstram eficácia compatível.

“Nesse cenário, a MosqTent se apresenta como uma nova e promissora tecnologia no campo da vigilância entomológica da malária, uma vez que pode ser utilizada em substituição à exposição humana direta. Além disso, em áreas com alta densidade de mosquitos anofelinos, a ferramenta apresenta elevada capacidade de captura”, explica José Bento Pereira Lima, chefe do Laboratório de Fisiologia e Controle de Artrópodes Vetores do IOC e um dos idealizadores da armadilha, juntamente com Maria Goreti Rosa-Freitas, do Laboratório de Mosquitos Transmissores de Hematozoários do IOC, e Allan Kardec Ribeiro Galardo, do Iepa.

As adversidades enfrentadas por profissionais durante a coleta de mosquitos na natureza, em especial, a possibilidade de infecção por patógenos, foi o ponto de partida para o desenvolvimento da ferramenta. “Nossa ideia foi unir em uma mesma tecnologia a facilidade da captura e a proteção individual”, sintetiza Goreti. Portátil e com uma estrutura leve, a armadilha pode ser guardada e transportada em uma bolsa. A tecnologia é útil para estudos em ambientes silvestres, domiciliares e peridomiciliares e dispensa energia elétrica ou outros componentes para a atração de insetos, como o gás carbônico, por exemplo.

Parte fundamental da vigilância, a coleta permite dimensionar a quantidade de mosquitos que habitam uma região e, posteriormente, analisar o percentual de infectados. Assim, pode-se estimar os riscos da transmissão de patógenos para a população. Os anofelinos, por exemplo, fazem parte de um grande grupo de mosquitos que tem preferência pelo sangue humano (antropofílicos), são de grande importância para a saúde pública e objetos de diversos estudos pelo mundo.

Testes de desempenho

Para verificar a eficácia da armadilha, os pesquisadores realizaram estudos de campo em Cariobal, na zona rural de Macapá, no Amapá – localidade que apresenta vetores da malária. Os testes reproduziram condições reais de captura nos meses de agosto e outubro de 2009 e janeiro e abril de 2010, considerando variações na densidade de mosquitos ao longo do ano. Ao todo, foram coletados mais de 22 mil anofelinos de cinco espécies. “Os testes comprovaram, na prática, a alta capacidade de atração da MosqTent para as espécies de anofelinos”, ressaltou José Bento.

mosqtent materiaSimilar a uma tenda, a ferramenta impede que o pesquisador ou o agente de endemias sejam picados pelos os mosquitos durante a coleta (foto: Divulgação)

Segundo as análises, em condições de alta densidade de insetos, a armadilha demonstrou desempenho superior a outras tecnologias, como a atração humana, a atração humana protegida, que considera o uso de calça comprida, camisa de manga longa e meião preto, e a ‘BG Sentinela’, armadilha que utiliza gás carbônico como atrativo. Em números absolutos, a MosqTent foi capaz de coletar aproximadamente 30% mais espécimes de Anopheles marajoara, An. braziliensis e An. nuneztovari.

Além do período de testes, a MosqTent foi utilizada, de forma experimental, por pesquisadores de outros Laboratórios do IOC em estudos de campo com simulídeos, popularmente chamados de borrachudos, e apresentou desempenho positivo na captura desses insetos que transmitem a oncocercose no Brasil.

Registro de uma inovação

Para obter o registro de patente, a armadilha foi avaliada pelo Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT) do IOC e pela Coordenação de Gestão Tecnológica da Fiocruz – órgãos institucionais de promoção da inovação em saúde. Em seguida, a patente foi depositada no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI). “O depósito é um passo importante no desenvolvimento de uma ferramenta que deve contribuir para melhorias em pesquisas de campo no mundo todo”, ressaltou José Bento. Segundo ele, o objetivo principal do processo de patenteamento é o de garantir a propriedade intelectual de uma inovação produzida nos laboratórios da Fiocruz e o uso futuro da armadilha para fins científicos e de serviço. Detalhes sobre o modo de funcionamento da armadilha e os resultados dos testes de eficiência foram reunidos em um artigo publicado no periódico científico PLOS Neglected Tropical Diseases.

Casos de malária

A região Amazônica, que abrange os estados do Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, concentra mais de 99% dos casos de malária registrados no Brasil. No entanto, as demais regiões, apesar de apresentarem poucas notificações, não podem negligenciar a doença, uma vez que são observadas taxas de letalidade mais elevadas que a região endêmica. Dados do Ministério da Saúde mostram que, em 2015, foram notificados mais de 143 mil casos da doença no país. Até setembro de 2016, foram mais de 81 mil confirmações positivas de casos de malária no país.

Fonte: Agência Fiocruz de Notícias

 

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