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Promoção da Saúde
  • publicado
  • Publicado: Quarta, 28 de Outubro de 2015, 10h24
  • Última atualização: 28/10/15 11h36

Pesquisadora da Fiocruz fala sobre oncocercose nas Américas

oncocercose marilza herzog dentroMarilza destaca a necessidade de uma atuação conjunta envolvendo pesquisadores, gestores e ações políticas visando a eliminação da oncocercose (foto: Gutemberg Brito)Um agravo pouco conhecido, que atinge uma região isolada no meio da Floresta Amazônica. Este é o cenário brasileiro da oncocercose, doença considerada negligenciada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), engrossando o rol de agravos relacionados à pobreza. O Prêmio Nobel de Medicina deste ano contemplou pesquisadores responsáveis pela criação de novas terapias para o combate às verminoses, incluindo esta infecção, produzida pela filária Onchocerca volvulus e transmitida por meio da picada do popular borrachudo ou pium, espécie de simulídeo. Especialista no tema, a pesquisadora do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) Marilza Herzog discute os desafios para o processo de eliminação da doença que tem apresentado mais dificuldades do que nos territórios vizinhos.

Marilza pontua que, atualmente, o país abriga, juntamente com a Venezuela, o último foco da doença que ainda persiste nas Américas, localizado na Terra Indígena Yanomami, nos estados do Amazonas e Roraima. A Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) previa como meta a interrupção da doença no Brasil até o final de 2015 – entretanto, este quadro parece não se concretizar no prazo previsto. Para a especialista, a história natural da doença no país é um dos principais fatores que dificulta a sua eliminação. “Aqui e no sul da Venezuela, a incidência está restrita a uma região totalmente silvestre, recoberta por densa floresta e rica em ambientes propícios aos criadouros dos borrachudos vetores. Além de ser isolada, a área é de difícil acesso e adversa às ações de saúde pública, diferentemente do que acontecia nos outros países do continente, que apresentavam focos periurbanos e rurais, ou até mesmo silvestres, mas com características mais viáveis”, explia a pesquisadora que é chefe do Laboratório de Simulídeos, Oncocercose e Infecções Simpátricas: Mansonelose e Malária do IOC. Ela destaca, ainda, a tradição nômade da população indígena atingida pela doença como outro fator de dificuldade na busca pela eliminação.

Em acordo firmado durante a 67ª sessão da Assembleia Mundial da Saúde, realizada em Genebra, na Suíça, em 2014, os governos do Brasil e da Venezuela assinaram memorando de entendimento se comprometendo a fortalecer e integrar ações para eliminação da doença na fronteira entre os países. Para atingir a meta de eliminação, atualmente são promovidas medidas preventivas, além de ações de caracterização epidemiológica do foco em área Yanomami. “Promover o acesso da população ao diagnóstico precoce e tratamento oportuno no âmbito da atenção primária da saúde é um importante desafio”, afirma Marilza. “A Floresta Amazônica é uma caixinha de surpresas para qualquer doença, portanto são necessários grandes esforços em saúde pública, com uma atuação conjunta que envolva pesquisadores, gestores e ações políticas”, complementa.

No continente americano, a busca pela eliminação do agravo teve intensificação, ainda na década de 1990, com a criação do Programa para Eliminação da Oncocercose das Américas. O Brasil é um dos seis países membros, ao lado de México, Equador, Colômbia, Guatemala e Venezuela. Destes países, onde a oncocercose se caracterizava na forma endêmica, México, Equador e Colômbia já cumpriram a meta de eliminação proposta pela Opas. O próximo a riscar a doença da lista é a Guatemala, que aguarda a visita técnica para receber o mesmo certificado.

Fora do mapa- De acordo com Marilza, o conceito de eliminação consiste na manutenção da interrupção da transmissão local da oncocercose. Neste caso, os especialistas consideram como indícios da presença da doença a presença das filárias nas amostras do tecido cutâneo de pacientes e o diagnóstico molecular das filárias nos borrachudos vetores – a última, uma das ações realizadas pelo Laboratório do IOC como parte da vigilância sobre a doença. “Quando não tivermos mais biópsias de pele positivas, nem registros de filárias nos borrachudos, dentro de um prazo de avaliação de cinco anos, o Brasil poderá receber o certificado da Opas. Ainda assim, será preciso manter a vigilância epidemiológica e entomológica por mais cinco anos”, explica a pesquisadora.

Criado na década de 1970, quando a doença foi descoberta no Brasil, o atual Laboratório de Simulídeos, Oncocercose e Infecções Simpátricas: Mansonelose e Malária do IOC é considerado, desde 2000, referência nacional para a oncocercose junto ao Ministério da Saúde. Além de contribuir para o Programa Brasileiro de Eliminação da Oncocercose, realiza capacitações de profissionais no âmbito de Secretarias Estaduais e Municipais de Saúde e de Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs). O espaço abriga, ainda, a Coleção de Simulídeos, que conta com um acervo composto por aproximadamente 35 mil espécimes, incluindo coleções históricas iniciadas há décadas pelos pesquisadores Adolpho Lutz e Cesar Pinto.

A cegueira dos rios e o Nobel de Medicina - Também conhecida como ‘cegueira dos rios’, a oncocercose é transmitida por simulídeos que, ao se alimentarem de um hospedeiro infectado, sugam microfilárias junto com o sangue. No prazo de uma semana a dez dias, elas se desenvolvem no organismo do borrachudo que, ao picar um indivíduo saudável, transfere formas infectivas destes vermes para o novo hospedeiro. Após cerca de um ano, os parasitas se transformam em adultos que vivem, em média, 15 anos e, no caso do encontro de machos e fêmeas, tendem a produzir grande número de microfilárias, que passam a se disseminar pelo corpo do paciente. A sua presença no organismo começa, então, a apresentar os primeiros sintomas, como o aparecimento de nódulos, de lesões na pele com acentuada coceira e, eventualmente, lesões oculares que podem levar à cegueira – este sintoma, comum na África, deu à doença o nome popular de ‘cegueira dos rios’, uma vez que é mais comum perto de cursos hídricos, onde os borrachudos transmissores colocam seus ovos e fazem de criadouros. No Brasil, são poucos os registros da manifestação de cegueira associada à oncocercose. Não existe vacina para prevenir a doença e o tratamento existente visa eliminar as microfilárias com a utilização da ivermectina pelo período mínimo de 15 anos.

Foram justamente os estudos sobre a ivermectina que motivaram, em outubro de 2015, que o irlandês William Campbell e o japonês Satoshi Omura recebessem o prêmio Nobel de Medicina, concedido pela Academia Real das Ciências da Suécia. A premiação foi dividida com a pesquisadora chinesa YouYou Tu, reconhecida pelo desenvolvimento de uma nova terapia no combate à malária.

Fonte: Lucas Rocha/ IOC/Fiocruz

 

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Assunto(s): oncocercose
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