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Promoção da Saúde
  • publicado
  • Publicado: Segunda, 10 de Setembro de 2018, 06h00
  • Última atualização: 10/09/18 18h17

Suicídio pode ser prevenido. Saiba como ajudar

contatos uteis 2018 twEstamos no mês de setembro e as campanhas de conscientização sobre prevenção do suicídio se espalham pelo mundo. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, cerca de 800 mil pessoas morrem por suicídio no mundo, anualmente. Conversamos sobre o tema com a antropóloga e especialista em suicídio Livia Vitenti, que hoje é professora visitante na universidade de Brasília. Para ela, a prevenção do suicídio começa quando deixamos de lado o tabu e falamos sobre o problema. Conversar sem julgamentos e acolher quem está em sofrimento pode salvar vidas.

O que significa a expressão “prevenção do suicídio”?

Prevenção do suicídio seria basicamente a gente conhecer alguns aspectos mais gerais do que algumas pessoas chamam de comportamento ou conduta. Outras pessoas vão questionar as expressões, porque não é um comportamento – que é algo inato. É uma ação de um indivíduo em relação a um sofrimento psíquico, ou um transtorno mental. Mas também tem relação com o sofrimento social ou ambiental. Na verdade, é biopsicossocial. Como antropóloga, também posso colocar aspectos culturais nesta questão do suicídio. Mas, principalmente, é entender como as pessoas que estão com o que chamamos de ideação suicida vão se comportar em relação a estes pensamentos que incluem a morte voluntária, auto infligida.

Portanto, quando falamos em prevenção, falamos de identificar estes sinais (que chamamos de sinais de alerta) e de como dar a devida atenção à pessoa que pode estar em sofrimento. É aquela frase: precisamos falar sobre. Precisamos falar sobre mas “como” e quando” são dois pontos muito importantes para serem lembrados quando vamos fazer a prevenção. E, principalmente, pensar que existe uma campanha, o SETEMBRO AMARELO, mas que o suicídio é hoje uma causa de morte muito importante no mundo, e deve ser abordado durante o ano inteiro, não somente nos picos de crise.

Que profissionais atuam no atendimento e na prevenção do suicídio?

O profissional de saúde, principalmente de saúde mental, vai ser o primeiro a ser acionado em casos de tentativas, o psiquiatra e o psicólogo; muitas vezes o assistente social tem uma participação importante nestas ações de prevenção. As urgências e emergências dos grandes hospitais também são muito importantes. Todos estes profissionais devem estar atentos porque são os primeiros a prestar socorro. Os socorristas – bombeiro, polícia, SAMU - também devem estar preparados para atender estas pessoas.

Como familiares e amigos podem identificar sintomas de um possível suicídio?

O que a gente tem mais medo é de falar sobre isso. A maioria das pessoas não vai se sentir à vontade para afalar. Primeiro conselho, seria, tente conversar. Você encarar o problema de frente é o mais importante. Não use nenhum tipo de subterfúgio, do tipo “ah, mas você tem a vida boa, você é muito jovem, tão bonito, tem o futuro promissor”. Isso não funciona para quem está com uma ideação muito forte. Quem tem uma ideia sobre suicídio muito forte, tem uma ideia fixa, uma visão de túnel. Essa pessoa não tem outa perspectiva. Ela não vê outra saída. Então, tentar colocar outras formas de ela entender e ver a vida dela naquele momento talvez seja completamente inútil. E não é nem porque a pessoa não quer, ela está com uma ideia fixa mesmo. Falar sobre isso é, principalmente, ouvir a pessoa. O que você está sentindo? Por que você está sentindo isso? Chamamos isso de escuta qualificada. No momento que a pessoa fala, talvez ela consiga entender e simbolizar o que está sentindo, e talvez saia daquela visão de túnel.

Este conselho é para quem consegue falar. Mas a maioria das pessoas não consegue falar porque têm medo. É um tabu muito grande na sociedade. É preciso identificar que aquela pessoa está com um problema, que existe um sofrimento, e encaminhar para um local de atendimento competente para isso. Mas, principalmente, não fingir que é algo simples, que vai passar, que não é tão grave.

Quais os sinais de alerta para identificar alguém que esteja precisando de ajuda?

É importante especificar os grupos de risco. Os sinais de alerta para depressão, às vezes, podem ser confundidos com os sinais de suicídio. Para os jovens, no âmbito do que chamamos de ideação primária está o desleixo com o autocuidado; a pessoa não está interessada em se arrumar, cuidar da saúde, pode até chegar no extremo de falta de higiene e de apetite. O jovem que não quer participar de atividades em grupos, não quer ir para a escola ou para a faculdade; que fica muito tempo na internet, fechado em um quarto. A internet é algo com o qual deve-se tomar muito cuidado em relação aos jovens por causa de blogs e sites que incentivam as atitudes que queremos evitar. Mudanças de humor muito repentinas é um sinal de alerta que pode ser confundido com outas questões, mas é bom ficar de olho. Ficar muito eufórico ou muito triste de repente. Beber ou fumar mais do que já fazia, ou começar a fazer. O jovem começa a beber muito, começa a fumar cigarros ou usar outras drogas.

Mas estes comportamentos são similares à própria adolescência. Como saber se os sinais são preocupantes ou não?

Pode-se tentar identificar, conversando mesmo com a escola, se este jovem está sofrendo algum tipo de bullying – porque sabemos que é um fator de risco para suicídio. Tem também a automutilação. Que não é necessariamente sinal de ideações suicidas, mas é sinal de sofrimento. Não existe um nexo causal entre se automutilar e cometer suicídio; pelo contrário, às vezes a mutilação é o escape para as ideias de morte, mas também identifica um sofrimento, alguma coisa que aquele jovem esteja tentando expressar e não esteja conseguindo.

Então, a identificação da origem dos problemas é fundamental para prevenção do suicídio?

Isso, ainda que o jovem não saiba qual é essa origem. O sofrimento pode estar vindo de vários canais. Uma ansiedade porque não vai conseguir se formar no ensino médio, não vai conseguir passar no vestibular ou se formar na faculdade. Essas pressões externas contribuem para o sofrimento, mas o jovem não consegue reformular. Por isso a verbalização é tão importante. Quando a gente conversa com uma pessoa, à medida que ela vai verbalizando ela pode identificar o problema que não conseguia identificar antes. O sofrimento pode estar sendo provocado por uma pressão para terminar o ensino médio, a faculdade, e a pessoa não consegue expressar. Nós tendemos a personalizar os problemas, e temos dificuldades de nos ver em relação a instituição: o que cada lugar está cobrando de você. Ao falar sobre o assunto, fica mais fácil identificar de onde está vindo o problema, o sofrimento. E fica mais fácil superá-lo, de preferência com a ajuda de um profissional qualificado.

E quanto aos adultos e idosos, existe uma diferença nos sinais?

Primeiro, vamos fazer uma diferença de gênero. Mulheres com mais de 70 anos estão no grupo protegido para suicídios. São os homens com mais de 70 anos que representam o grupo de risco. A própria depressão se manifesta de forma diferente nestes homens. É uma depressão mais violenta contra si mesmo, e tem, de forma geral, momentos de rompante. De repente ele está num estado normal e, de repente, tem um pico de agressividade. E aí, este pico de agressividade pode ser contra o outro ou pode ser contra si mesmo. O idoso também pode apresentar a solidão, uma apatia muito forte (que pode ser confundida com a depressão), a forma de manifestar a ideação suicida para os idosos pode passar por frases como “estou cansado de viver, já vivi muito”. É preciso pensar muita atenção nesse discurso quando se está lidando com idosos.

Quais são os fatores de risco para o suicídio nos grupos de situação econômica e social carentes?

Na nossa sociedade, os fatores de risco são: perspectiva de vida, no sentindo de conseguir emprego. No jovem isso é muito forte. Transtornos que são de ordem neurológica, como fibromialgia, Alzheimer, Esclerose Múltipla. Homens estão mais a risco do que mulheres, embora as mulheres tentem mais do que os homens, eles morrem mais; inclusive pela dificuldade que têm de procurar ajuda.

Você disse que as mulheres tentam mais. O simples fato de tentar não faz das mulheres um grupo de risco maior?

O sofrimento social entre homens e mulheres é analisado de formas diferentes. Existem várias teorias sobre por que as mulheres tentam mais e morrem menos. Uma delas é de que as mulheres são socializadas na nossa sociedade para ser a cuidadora. Então, esse ‘cuidar’ estaria refletido na forma como ela tenta. Como se ela estivesse preocupada em quem e como vão encontrá-la.

O que mais é importante de ser dito sobre a prevenção do suicídio?

O mais importante é a quebra de tabus. Lembrar que é um fenômeno muito complexo, multifatorial; a gente pode apresentar fatores de risco mas não existem determinantes para o suicídio. É, inclusive, perigoso falar sobre determinantes porque, se a pessoa que está em ideação se vincula a esses determinantes, pode estar em risco. Vamos ter classe social, dificuldades financeiras, depressão ou outros transtornos como esquizofrenia – tudo isso está relacionado mas não são determinantes. É importante falar sobre depressão porque as pessoas fazem um nexo causal. A depressão não é um nexo causal de suicídio. Temos várias pessoas que tem depressão e não pensam em suicídio, e várias pessoas que pensam em suicídio e não têm depressão. Falar sobre suicídio é importante para prevenção, levando em consideração a não culpabilização; e lembrar que existe o individuo implicado, mas também existe uma sociedade, um ambiente que está no entorno dele e que podem contribuir inclusive para a prevenção. Quando você faz uma escuta qualificada e dá atenção ao problema da pessoa, você mostra a ela que ela não está sozinha. Saúde mental é vínculo, é acolhimento: eu te escuto e eu dou importância ao que você está falando. Não podemos ter medo de falar sobre isso de uma forma responsável.

Por Patrícia Cordeiro, para o Blog da Saúde

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